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Pedir experiência não é preconceito contra jovem
Ter satisfação no trabalho? Cresça, você mal tem idade para dirigir
Na semana passada, fiz 29 anos, um evento que, assim como ocorre com muita gente que se aproxima dos 30, foi marcado por uma sensação depressiva, pela ingestão excessiva de álcool e pelo pensamento tristonho focado em questões profundas como: "Qual é o sentido disso?", "Será que algum dia encontrarei alguém suficientemente legal para casar?", e "Por que ainda não tenho uma Ferrari 612 Scaglietti?".
Inevitavelmente, com a minha juventude retrocedendo um pouco mais no horizonte, os meus pensamentos se voltaram para a questão da carreira profissional, e passei a me perguntar se o fato de ser jovem em um determinado trabalho é positivo ou não. Segundo a minha experiência, as coisas funcionam da seguinte forma: se você é jovem, as pessoas tendem a elogiá-lo quando as coisas correm bem, e a perdoá-lo quando nem tudo dá muito certo.
Mas, segundo vários relatórios recentes, tal visão não é correta. Vários especialistas temem que os jovens de hoje sejam vítimas do chamado "youth ageism" (algo como "discriminação dos jovens devido à idade"), e a Universidade de Kent anunciou no mês passado que esse fenômeno é mais freqüente no Reino Unido do que o racismo ou o sexismo --e que os jovens são tão vítimas dele quanto os mais velhos.
Enquanto isso, o Fórum de Empregadores sobre a Questão da Idade, um grupo de ativistas que defende os trabalhadores contra o preconceito em relação à idade, declarou em fevereiro que a idéia de que a discriminação em relação à idade no trabalho afeta apenas aqueles que têm mais de 50 anos não passa de um mito. "Esse é um problema ainda maior com as pessoas que têm entre 18 e 20 anos", disse a organização.
A minha resposta inicial a tais relatórios foi eufórica. Afinal de contas, deve haver uma vantagem em não ser jovem. Mas, ao ler mais detalhadamente o relatório "Idade no Trabalho" do Fórum de Empregadores sobre a Questão da Idade, essa alegria se transformou em confusão.
Fiquei especialmente perturbado com as seguintes declarações:
a) "os adolescentes reclamam do preconceito quanto à idade, e sentem com freqüência que perdem oportunidades de progredir profissionalmente por serem considerados inexperientes";
b) "são negados aos jovens trabalhos interessantes e desafiadores";
c) "as pessoas estão presas a uma idéia ultrapassada de carreira, segundo a qual os jovens começam de baixo e a aposentadoria é o topo da montanha da ascensão funcional";
d) "os adolescentes acham que seus empregos são chatos --eles constituem o grupo etário mais inquieto, talvez porque não contem com desafios interessantes no trabalho".
Listarei as minhas objeções em ordem correspondente:
a) certamente o motivo pelo qual os adolescentes são "considerados inexperientes" é que, com exceção dos poucos que são administradores de conglomerados internacionais quando ainda estão na escola, eles geralmente são inexperientes;
b) não há nada de errado com o fato de os jovens começarem com trabalhos aborrecidos --os trabalhos interessantes e desafiadores são raros, e as pessoas geralmente os obtêm após aprenderem os conceitos básicos e adquirirem experiência;
c) não há nada de "ultrapassado" quanto à idéia de se começar na base e terminar no topo --este seria um mundo muito estranho caso as carreiras seguissem o caminho inverso;
d) até mesmo aqueles de nós que têm empregos interessantes às vezes ficam entediados --seria fantástico se o trabalho fosse tão constantemente estimulante quanto uma sessão do videogame Grand Theft Auto, mas não é. Bem-vindos ao Planeta Terra.
Na verdade, o relatório continha tantas afirmações tolas que ele faria com que um indivíduo que discrimina os jovens devido à idade pensasse: talvez isso tenha sido escrito por uma criança de 12 anos. Pelo menos, ele me fez pensar se o "youth ageism" é de fato o problema devastador que alguns especialistas dizem ser. Para testar tal possibilidade, pedi à organização que me colocasse em contato com uma vítima da discriminação contra os jovens.
Eles me apresentaram a Robin Hill, um desenhista gráfico de 24 anos de Coventry. Com um charmoso sotaque que me lembrou a minha terra, ele contou que foi despedido de um antigo emprego depois que foi seriamente sabotado pelo seu gerente de 60 anos. "Ele ignorava as minhas opiniões e nunca aceitou as minhas posições, a menos que estas fossem apoiadas por alguém mais velho", contou Hill. "Me senti infeliz e subestimado".
Bem, não quero menosprezar a terrível experiência de Robin, mas os dois pensamentos que me ocorreram durante a nossa conversa foram:
1) poderia haver vários motivos pelos quais o padrão de Robin se comportou de forma tão horrível, nenhum deles relacionado à questão etária --ele pode simplesmente não ter gostado de Robin, por exemplo;
2) ainda que esse fosse um exemplo de discriminação contra os jovens, tal fato estaria longe de se constituir naquele tipo de injustiça que faz com que se queira fabricar coquetéis Molotov e promover manifestações nas ruas de Londres, como ocorre nos casos flagrantes de racismo, sexismo e preconceito convencional contra a idade.
O "youth ageism" é uma questão de menor importância que todos nós enfrentamos e que a maioria supera facilmente. Durante a disputa pela liderança do Partido Conservador, houve várias sugestões de que um dos candidatos, David Cameron, seria "muito novo" para o cargo. Não o vimos reclamar de preconceito --ele simplesmente seguiu em frente na tarefa de tentar persuadir os seus críticos do contrário.
Lembro-me de que certa vez um editor me disse que eu era muito novo para escrever para uma coluna no seu jornal. Após um desentendimento inicial, comecei a escrever assim mesmo, descobrindo que respeito é algo que precisa ser conquistado. Em nenhum momento senti necessidade de buscar proteção legal.
Não obstante, parece que a juventude britânica acabará obtendo tal proteção. Nos Estados Unidos, uma lei federal proíbe a discriminação contra qualquer pessoa com mais de 40 anos, mas o inverso não se aplica.
No entanto, as leis relativas à discriminação quanto à idade que devem ser introduzidas no Reino Unido no final de 2006 a fim de atender à diretriz trabalhista da União Européia provavelmente protegerá os trabalhadores jovens da mesma forma que protege os velhos.
Isso seria deprimente. Afinal, se a lei no diz que é possível que uma pessoa seja muito jovem para beber, para casar ou para dirigir uma Ferrari 612 Scaglietti em uma rodovia pública, certamente não há nada de errado com a noção de que os indivíduos podem ser muito novos para exercerem determinados trabalhos.
Seria realmente triste se a experiência --ou "quilometragem absoluta"-- não servisse para nada. 21 / 10 / 2005 Fonte :Sathnam Sanghera/Financial Times
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