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Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

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Governo do Irã acusa CIA de financiar protestos contra eleição de Ahmadinejad

Um dos candidato derrotado retira queixas de fraudes eleitorais. Aiatolá havia ampliado prazo para contestar resultados da presidencial.

O ministro iraniano do Interior acusou nesta quarta-feira (24) a CIA, agência de espionagem dos EUA, de ajudar a financiar "desordeiros", aumentando as acusações de envolvimento do Ocidente nas manifestações de rua após a eleição presidencial do país, contestada pela oposição.

"Grã-Bretanha, América (EUA) e o regime sionista (Israel) estão por trás da recente agitação em Teerã", disse o ministro do Interior, Sadeq Mahsouli, segundo a agência de notícias semioficial Fars.

"Muitos dos desordeiros estão em contato com a América, a CIA, a OMK e estão sendo alimentados por seus recursos financeiros", afirmou. A OMK (Organização Mujahideen Khalq) é um grupo iraniano de oposição exilado.

Mais cedo nesta quarta, o candidato conservador derrotado Mohsen Rezaei decidiu retirar as queixas que tinha apresentado ao Conselho de Guardiães do Irã, pelas supostas irregularidades nas eleições presidenciais de 12 de junho.

Em carta enviada ao presidente do Conselho, Ahmad Jannati, o conservador se queixa da "falta de tempo" para seguir com o processo. "A situação política, social e de segurança entraram em uma fase delicada e sensível, que é muito mais importante que a própria eleição", afirmou Rezaei, que obteve somente 1,73% dos votos.

É cedo para falar em revolução popular no Irã, dizem analistas

Eleição, exemplo de democracia, fraude, roubo, golpe, censura, espionagem, levante popular, violência, repressão, revolução, fim do regime? Em cada uma das análises sobre os incidentes que tomaram conta de parte do Irã após o anúncio oficial da reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, no último dia 12, sobra especulação e falta informação real.

Enquanto a imprensa oficial do governo ressalta o exemplo democrático do país e acusa a influência internacional pelos protestos, a mídia ocidental (censurada e expulsa do país) incorpora o discurso oposicionista de que não há dúvidas de ter havido fraude e diz que o presidente tenta dar um golpe de Estado. O G1 ouviu dois pesquisadores de origem iraniana que vivem nos Estados Unidos. Para ambos, ainda é cedo para falar em revolução popular, mas os confrontos entre governo e oposição mostram que existe uma luta por poder dentro do regime teocrático, que ajudam até mesmo a reforçar a tese de que houve manipulação na votação.

“Só se pode falar em revolução depois que ela é bem-sucedida”, disse Afshin Molavi, autor de dois livros sobre a política no Irã. “O que estamos vendo não é apenas confrontos nas ruas, mas é uma luta interna do regime com o próprio regime, uma disputa de poder entre os aiatolás, entre os principais líderes políticos do país. Os líderes oposicionistas não estão pedindo uma revolução, mas apenas uma maior abertura do processo político”, explicou.

Para ele, nunca vai ficar claro o que realmente aconteceu no dia da votação, ou se houve, de fato, uma fraude nos votos. Mesmo sem evidências graves de manipulação, ele argumenta que é importante o fato de que analistas são unânimes em apontar irregularidades. O mais relevante, entretanto, é que parte da “elite da república islâmica acha que houve fraude”.

Analisando as tendências eleitorais do país, que são o tema de seu trabalho de doutorado, Kaveh-Cyrus Sanandaji admite não haver provas concretas de fraude, mas é mais direto em sua avaliação: “Houve algum tipo de manipulação, de interferência nos resultados”, disse. Segundo ele, por mais que seja comum haver surpresas nos resultados eleitorais do país, o que foi anunciado como uma vitória esmagadora de Ahmadinejad, com mais de 60% dos votos, chega a ser ilógico.

“Mir Houssein Moussavi [candidato que ficou em segundo lugar e lidera os protestos] não é um opositor qualquer. Ele tem muitos contatos com os aiatolás e chegou a anunciar que venceria a eleição porque recebeu a informação de alguém muito poderoso ali dentro”, disse. Para o pesquisador, a manipulação do resultado não foi planejada e acabou sendo executada de forma rápida depois que estes primeiros números foram computados.

Sem saída

Desde a eleição, a repressão contra os protestos nas ruas das cidades iranianas já deixou pelo menos 18 mortos, e os manifestantes foram ameaçados com mais violência caso continuem indo às ruas. Segundo relatos da imprensa ocidental, está sendo cobrada, das famílias das vítimas, uma taxa pelas balas que mataram os opositores morreram. Eles só podem enterrar os corpos após o pagamento da taxa.

O governo já negou mais de uma vez ter havido qualquer tipo de manipulação no resultado eleitoral e chegou a confirmar a posse do presidente reeleito, mas admitiu a possibilidade de recontar uma amostra de 10% dos votos. O Conselho de Guardiães aumentou em cinco dias o prazo para que os candidatos derrotados registrem suas queixas. Os protestos continuam acontecendo.

Para Sanandaji, a única solução real para o atual impasse seria a realização de novas eleições, com maior cuidado de todos os candidatos contra uma nova fraude. “Recontar não vai adiantar de nada, pois ninguém sabe ao certo o que aconteceu com os votos, se as urnas escolhidas para recontagem são autênticas, se não houve manipulação também aí”, disse. Segundo ele, o governo nunca vai admitir ter manipulado a votação, pois isso tiraria sua legitimidade.

Sem uma saída clara, disse, é provável que os protestos continuem sendo reprimidos até que os opositores desistam, ou até que radicalizem sua ação usando também da violência, tentando um “contra-golpe”, enfrentando o aparato de segurança do governo.

Segundo Molavi, ainda estamos assistindo ao início de uma “maratona”, um processo longo, do qual não se pode saber qual vai ser o rasultado final. “Até a Revolução Islâmica [em 1979], o país assistiu a um ano de protestos sem parar. Não é um processo simples, e é preciso prestar atenção se vai começar a haver greves agora, pois elas foram definitivas no processo de 30 anos atrás”, disse.

EUA

Os principais analistas internacionais da mídia ocidental viram um endurecimento no discurso de Obama em relação ao Irã, durante sua entrevista coletiva na terça-feira (23). O presidente norte-americano, que vinha evitando comentar o processo político interno do país, se disse ultrajado com a violência. Para os iranianos com quem o G1 conversou, Obama age correto ao evitar se envolver.

“Ele não deve tomar partido, mas apenas focar a defesa dos direitos humanos, como está fazendo”, disse Molavi. Para ele, o norte-americano acertou também quando alegou que Moussavi não seria um presidente mais fácil de negociar de que Ahmadinejad.

Sanandaji concorda e argumenta que uma postura mais dura de Obama só favoreceria o governo iraniano, que poderia reforçar seu discurso de que os opositores são todos agentes do imperialismo dos Estados Unidos. “EUA e Europa sempre agem como o ‘bom tira’ e o ‘mau tira’ com o Irã. Quando um bate, o outro alisa. Normalmente os norte-americanos são mais críticos, enquanto os europeus apoiam. Agora que Obama evitou atacar, os europeus estão sendo mais efusivos em suas declarações.”
24 / 6 / 2009

Fonte :G1


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